Matéria divulgada na 4ª edição da revista digital e interativa A Arte de Navegar.
Deixar a vida seguir seu rumo. É com essa leveza que o caminho entre Lorrane e Márcio é traçado diariamente pelas águas de Paraty, no estado do Rio de Janeiro. Isso reflete a história do casal que redescobriu uma nova forma de enxergar a vida ao velejar e construir novas experiências no percurso. Lorrane Ramos Almeida nasceu em Uberlândia, Minas Gerais, mas até os 17 anos morou em uma fazenda no distrito de Tapuirama – foi quando retornou para a sua cidade natal focada nos estudos e na vida profissional. Com uma personalidade determinada, comunicativa e carismática ela se uniu ao Márcio [Almeida] o técnico de mecânica movido a desafios e com anseio por cada vez mais conhecimento.

Ambos se conheceram há 13 anos através do extinto MSN e após seis meses de conversa se conheceram pessoalmente e nunca mais se distanciaram. E dessa forma, o relacionamento deles seguiu por ventos favoráveis e foi surpreendido por um desejo do casal: morar em um veleiro e desbravar lugares pelo mundo afora. A ideia surgiu há cinco anos quando eles fizeram uma viagem até o Morro de São Paulo em Salvador (BA). Como no lugar não tinha moto ou carro, isso intensificou a vontade de conhecer o mundo como mochileiros. Nesse momento cogitaram comprar um motor home, mas quando se aprofundaram na vida a bordo não foi possível parar. “Nos aprofundamos no assunto, lemos muito livros, assistimos vídeos e aulas e conversamos com pessoas que moravam a bordo. Foi assim que decidimos que em vez de terra, iríamos viajar pelos mares”, compartilhou Lorrane.

“Um dia fizemos um passeio de um dia e após três dias já compramos o veleiro numa proposta improvável do universo e daqui mesmo de Paraty o Márcio já pediu a conta”.
Lorrane Almeida
Eles moram no veleiro há um ano e seis meses e quando retornaram de Paraty após a compra do barco já iniciaram a venda do apartamento, moto e logo em seguida do carro. Apesar da resistência entre amigos e familiares, nada interferiu na decisão que o casal havia tomado. A cidade de Paraty escolheu o casal já que era o local no qual a embarcação estava, mas eles também foram se apaixonando por cada canto do lugar e de sua história.
Apesar de alguns desafios do dia a dia como ter água finita na embarcação e a ausência de água quente, Lorrane e Márcio reforçam que cada segundo e desafio valem a pena. Cada momento superado é um passo a mais dado em direção às mudanças e aventuras que ambos desejam em suas vidas. A saudade das pessoas que ficaram em Minas Gerais também aperta o coração do casal mineiro, mas nada os impedem de continuar acreditando nessa história que ainda está no início. Outro ponto importante que destacaram sobre a vida a dois em um veleiro é o respeito a individualidade e uma cumplicidade cada vez mais forte entre os dois.

Suas vozes também se alteraram e se emocionaram ao contarem de um momento marcante que tiveram na embarcação: 40 nós no Saco do Mamanguá. “Tudo o que sonhamos e planejamos estava acontecendo. Pegar esse vento foi um aperitivo de que estamos preparados e que todo o nosso estudo e esforço não foi em vão”, compartilhou Márcio.
A liberdade do mar que os encantou também os desestabilizou em alguns momentos, enfrentando situações delicadas no mar. “Saímos atrás de uma ilha com as velas abertas e pegamos muito vento. O mar estava tão revolto que o barco ficava batendo de um lado para outro. O Márcio ficou agarrado na retranca para descer a vela e eu passei muito mal. Olhamos hoje e damos risada do tanto que éramos inexperientes”, contou Lorrane.
Entretanto, essa mesma liberdade também permite encantos e momentos inesquecíveis que eles insistem em guardar cada segundo, dois lugares que representaram esse sentimento para o casal foi o Saco do Céu em Ilha Grande e a Ilha do Cedro em Paraty.
O nome dado para essa experiência é a representação fiel dos objetivos de suas vidas: velejar por uma nova vida. “Sempre será uma nova vida, sempre será um novo dia, sempre será uma nova aventura, sempre será um novo tempo e a natureza nunca é igual, assim como o mar. Isso traduz tudo. Todo dia é um novo dia”, finalizou Lorrane.
Assim, Lorrane e Márcio se desafiam diariamente a caminhar em direção para a vida que escolherem para ambos e, como cada dia é feito por novas escolhas e experiências, eles continuam navegando pelos mares e sonhando, e tentando descobrir quantas vidas podem caber dentro de uma.
Hospedagem e veleiro
O Sailing New Life trabalha com day charter e pernoite. Realizamos passeios de dia e levamos para almoçar, mas também disponibilizamos churrasqueira para quem preferir permanecer no veleiro. Já o pernoite engloba café da manhã, almoço e jantar. Atualmente eles estão realizando uma troca de embarcação, a qual receberá mais tripulantes e com três cabines e dois banheiros, além de água quente. A partir de agosto, eles terão um novo veleiro para trazer ainda mais conforto e uma experiência completa aos hóspedes, segundo eles.
Com a nova embarcação também será possível utilizar o veleiro para ensaios fotográficos, lua de mel, pedidos de casamentos, entre outras opções oferecidas.
O veleiro atual funciona em esquema de sociedade com os antigos proprietários, Marcos Vidigal e Maria Angela Moura Leite, por problemas familiares eles queriam se desfazer da embarcação foi quando Lorrane e Márcio sugeriram a criação de uma sociedade.

Teve alguma experiência que marcou profundamente vocês?
Lorrane: A experiência que me marcou profundamente – eu tenho certeza que o Márcio também – foi a primeira vez que subimos a vela sozinhos. Nós choramos muito. Ainda inexperientes e sozinhos fizemos isso. Foi muito emocionante a gente chorou muito, porque só nós sabemos o tanto que lutamos e estudamos para que aquele momento acontecesse.
O que significa o mar para vocês? E a natureza em geral?
Márcio: O mar significa para nós uma virada de chave, uma conexão maior com nós mesmos e como casal. O mar e a natureza são uma escola eterna escola que te ensinam sobre respeito e humildade.
Qual lugar ainda não visitaram e que possuem muita curiosidade e paixão em visitar?
Lorrane: Temos muita vontade de visitar vários lugares no Brasil. Um deles é fazer à nossa costa brasileira, porém a gente quer sair do Uruguai, fazer a costa brasileira, ir para Recife, Refeno, Caribe, Portugal e finalizar na Groelândia. Então não temos um lugar específico, tem uma rota em que a gente está estudando sobre ela para fazer daqui cinco anos provavelmente.
Qual palavra vocês usariam para definir toda essa experiência vivida até aqui? Podem ser mais palavras.
Márcio: Realização, determinação, estudos e foco. Nem tudo é um mar de flores, vai ter dia que você vai querer desistir, vai ter dia que você vai chorar de saudade da família, dos amigos, se sentir sozinho. Mas primeiro é ter disciplina e ter foco no que você se propôs. Saber qual é o seu objetivo de vida e seguir em frente.
Qual lição vocês levam até hoje sobre tudo o que viveram desde o início desta vida no veleiro?
Lorrane: A lição é que nunca sabemos de tudo. É necessário sempre estar aberto a aprendizados. Outra coisa é que a natureza que manda. Ela que manda e não somos ninguém perto disso, quando ela está em fúria. Além disso, acho que a maior missão também é deixar a vida levar um pouco, nem tudo é a regra que a sociedade impõe.
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